Somos Protestantes. Essa afirmação para os anglicanos é absolutamente normal e deve ser reconhecida como algo que faz parte de nossa identidade confessional. Isso significa que compartilhamos valores essenciais de nossa fé cristã com aqueles que descendem eclesialmente de Lutero, Calvino, Zwínglio, Bucer, Farel, Melanchton, só para citar alguns. Somos protestantes.
Da mesma maneira que os 39 artigos servem de base para afirmar que “somos católicos”, aqui também para eles apelamos para fazer essa afirmação. Vejamos:
Do artigo 5º ao 33º temos temas que são essencialmente ligados ao desenvolvimento do protestantismo na Europa no século XVI: a suficiência das Escrituras e a importância do Antigo testamento, são atestados pelos artigos 5 e 6; a doutrina do homem (antropologia), do pecado(harmatiologia), assim como a justificação somente pela Fé a Salvação unicamente pela graça são os assuntos dos artigos 9 a 18; sobre a Eclesiologia e a autoridade na Igreja, artigos 19 a 21. Os artigos 22 a 24 falam sobre assuntos típicos da doutrina romana que são rechaçados como antibíblicos; do 25 ao 31 é a vez da doutrina dos Sacramentos, que são apenas dois, o Batismo e a Santa Comunhão; o 32 fala do casamento dos ministros, contra o Celibato obrigatório; o 34 sobre as Tradições e seu valor; os demais falam de questões menores: dos excomungados e das Homilias Eduardinas como padrão doutrinário.
Somos protestantes porque cremos que a bíblia é a única e suficiente regra de fé e prática. Somos Protestantes porque cremos que os homens nas cem perdidos, inclinados ao mal, incapazes de satisfazer a Lei para serem salvos. Somos Protestantes porque cremos na justificação unicamente pela fé em Cristo, independente das boas obras, embora creiamos que as boas obras são frutos de uma vida transformada pela Graça. Somos Protestantes porque cremos na predestinação e na eleição, embora haja entre nós variações destas doutrinas, por exemplo, da predestinação do indivíduo à predestinação da Igreja. Somos Protestantes porque rejeitamos doutrinas que não encontram baliza nas Escrituras tais como o purgatório, o culto das imagens, dos santos e dos anjos, não cremos no primado e Pedro, nem do Papa, não cremos na Transubstanciação, não cremos na intercessão dos santos, não cremos que a Tradição seja instrumento para edificar doutrinas, não cremos na regeneração batismal nem que a Eucaristia é a repetição do sacrifício de Cristo na cruz.
Somos protestantes porque sentimo-nos inclinados à Comunhão com os Luteranos, os Calvinistas, os Metodistas e outros grupos históricos que também guardam a fé uma vez dada aos santos (Jd 3).
Nosso Livro de Oração Comum confirma a doutrina protestante. Ele não é um “missal”, mas um manual do culto, que orienta o ministro e os fiéis segundo a doutrina e prática da Igreja cristã como sempre foi.
O que não concordamos, entretanto, é com alguns grupos extremistas que afirmam que toda a experiência da Igreja anterior à Reforma deve ser descartada. Nada disso! Não houve uma ruptura com a fé apostólica com nenhum dos reformadores. Lutero, em 31 de outubro de 1517, ao afixar suas teses na Igreja de Wittemberg NUNCA quis fundar uma nova igreja, mas simples e tão somente reformá-la. Aliás, cremos que a igreja deve reformar-se constantemente, abandonando todas as práticas que porventura venham a colidir com as Escrituras.
O que não concordamos é dizer que a Igreja Anglicana foi fundada por Henrique VIII, quando não foi! Há registros do Cristianismo na Inglaterra desde o século III e bispos ingleses participaram do Concílio de Arles, na França, em 314. No século VII a Igreja da Inglaterra juntou-se a Roma, mas ela já era anterior e esta aproximação nem sempre foi aceita em plena paz. Já no século XV, os lolardos, seguidores de John Wycliff defendiam reformas e a volta da autonomia da Igreja Inglesa.
Também deve ficar claro que somos a maior denominação protestante do mundo, ultrapassando a casa dos 100 milhões de fiéis, dentro e fora da Comunhão Anglicana de Canterbury. Somos uma das maiores forças evangelizadoras na África, em países como Nigéria, Ruanda, Uganda e África do Sul.
Somos e queremos ser uma Comunidade de fé atuante e relevante no século XXI.
Somos Protestantes!